Manhã de domingo, 11 de abril de 2010. Último dia da exposição das relíquias em SP. O mistério e a compaixão de sempre estiveram presentes. Mas algo parece ter mudado.
Em 2008, estive em Viamão para a abertura da turnê brasileira. Foram dias de muitos insigths e visões. Um certo estado de graça e alegria por todos aqueles que passavam por lá. Gratidão aos mestres que nos apontam o caminho de modo incessante, gerando meios de nos alcançar aonde quer que estejamos. Chorava comovida ao ver famílias, idosos, bebês, pessoas de todos os jeitos.
Como sonhamos naquela primeira visita, as reliquias retornam ao Brasil para uma turnê em 10 cidades, entre elas São Paulo.
Cheguei por aqui na tarde de quarta, direto da rodoviária para o Centro Cultural Hiroshima, no bairro da Liberdade. O salão ainda estava vazio, a mágica toda por acontecer. Deixo a bagagem em algum canto. Sacola de viagem de sempre, recheada de roupas de frio. Faz frio e chove nessa cidade.
A montagem da exposição é inspiradora. Antes de qualquer coisa, Cristian, um dos guardiões, convida o grupo de voluntários para alguns minutos de meditação. Ele fala do que está por acontecer, relembra nossa motivação e nos oferece uma paisagem de oferecimento e serviço. Ficamos sentados no chão em silêncio. Estamos a algumas horas de montar o grande altar que irá abrigar as relíquias. Altar que irá lembrar os altares montados nos corações de todos.
A presença poderosa das relíquias apenas nos relembra nossa natureza de compaixão e amor. Simples assim.
Vamos nos dedicar ao longo desses 4 dias a isso. Nesse momento, o que poderia ser mais rico em nossas vidas?
E sentada no tapete no meio daquele salão vazio, lágrimas começam a surgir. E não param. Ainda não pararam.
A cada hora da montagem, Ghandi, o outro guardião, toca um pequeno sino. Hora de parar o que estamos fazendo e sentar em silêncio para relembrar nossa motivação e o propósito de toda aquela movimentação. Em apenas dois minutos, nosso eixo se refaz, e retornamos mais focados ao trabalho. E tudo vai ficando mais e mais bonito.
A cada manhã da exposição, alguns voluntários assistem a chegada das relíquias. Ficamos em silêncio enquanto os guardiões vão colocando cada uma delas em seus respectivos lugares no altar principal, começando pelo fragmento de uma carta escrita por Yeshe Tsoguial. Sim, a primeira reliquia a ser depositada é de uma mulher, consorte de Guru Rinpoche, sua principal aluna, de realização completa. Eles seguem em uma reverência total, movimentos calmos e coordenados, parece mesmo uma dança.
Tudo pronto, voluntários e guardiões recitam o Sutra do Coração da Prajnaparamita. A atmosfera que surge dentro do salão impressiona.
Milhares de pessoas visitam a exposição e recebem as bençãos, quase todas visivelmente tocadas de um modo misterioso. Ninguém consegue descrever muito bem o que se passa. Mesmo nos momentos em que a fila ia grande pela rua, todos esperavam com calma e respeito, e um grande silêncio surgia de modo natural.
O primeiro dia passa, vou ajudando aqui e ali, vendo o rosto de cada um dos voluntários se abrir em sorrisos e lágrimas.
Em algum momento, faço prostrações diante do altar e sigo prestando as homenagens a cada conjunto de relíquias. Diante da caixa que abriga os mestres mais recentes, um sentimento profundo me toma. Uma mistura de gratidão, humildade e dor. Ouço meu coração suplicar aos mestres que sigam cuidando dos seres. Porque eu não sei como fazê-lo.
Sigam cuidando dos seres, eu suplico, e me ajudem a ajudá-los.
O choro vem mais forte. E era só o início.
Ao final daquele primeiro dia, recitar a prece de dedicação de Shantideva abre ainda mais a fenda em meu coração, que parece muito pequeno para abrigar tudo aquilo. Que nenhuma doença se instale. Que todos os remédios sejam eficazes, que todos encontrem alívio. Que os cegos vejam formas, que os aprisionados encontrem liberdade. Enfim, que os seres sejam felizes. Que os seres se libertem do sofrimento. É isso. Sempre foi isso.
A experiência segue se aprofundando.
Sábado, início da tarde, nem me lembro o que fazia, algo me pega de jeito. Atravesso o salão do altar meio apressada. Na cozinha, ouço meu próprio choro. E ouço algo mais. Difícil descrever.
É como se naquele momento eu ouvisse o choro dos seres em sofrimento. É quase insuportável. Nas outras vezes, a conexão foi de alegria pelos seres que se aproximavam e se abriam às bençãos amorosas. E agora, senti a conexão com aqueles que não conseguem se aproximar. Como se eu entrasse em contato com a tal devastação que os mestres nos apontam quando descrevem o lago de lágrimas. Uma infinidade de seres em experiências de sofrimento.
Ouço o sofrimento dos seres. Gigantesco. Indescritível.
Alguém tenta me consolar. Mas não há o que consolar. Não sinto desamparo, ou dor, medo ou algo assim. Simplesmente sinto em meu coração a vastidaão dos seres que sofrem por desconhecerem nossa condição natural de liberdade. E deixo esse choro chorar em mim.
À noite, na prece de Shantideva, sou tomada de modo ainda mais intenso. Em um relance, todas as preces que recitamos em nossas atividades me surgem, vivas, palavra por palavra.
“Possam a aparência das Três Jóias e o fluxo mental dos seres permanecer inseparáveis e trazer sublime bem estar por todos os três tempos.”
Enquanto Cristian e Ghandi recolhem mais uma vez as relíquias, a Venerável Gloria recita mantras. Parece que meu coração vai arrebentar de vez. E ainda assim, não é uma experiência de dor.
Ouço minha mente chamando o Lama. Fica claro que tenho que me prostar diante dele, Lama que é a manifestação clara de compaixão, amor e lucidez. Lama que é a expressão viva da ação iluminada de Guru Rinpoche.
Ele está com um grupo em retiro aberto, em um hotel bem próximo ao local da exposição. Vou até lá com Fernando e Eliane. Sentamos em um canto da sala de meditação, que parece iluminada pelos rostinhos conhecidos. A sanga. Nossa família.
Como sempre, Lama brinca comigo, diz que está me achando muito branquinha, pergunta se foi um dia de muito trabalho, se eu me alimentei direitinho... Ele sabe que durante os eventos do Darma, geralmente não me alimento, nem durmo.
Meu olho molha devagar. Alguém comenta como foi lindo o dia para todos. Umas 1000 pessoas passaram por lá, só naquele dia.
Foi mesmo um dia muito lindo.
Ele encerra puxando as preces. E logo me sinaliza, para que eu cante a prece de Guru Rinpoche. Temos essa boa conexão, pela qual sou muito grata. Sei que a voz vai ser traída pelo choro. E não deu outra.Ele segue rindo, e pede que as pessoas cantem mais alto.
Ele se despede do grupo e eu vou até ele, entrego o katag, e, chorando, coloco minha cabeça em seu colo.
Sinto as mãos dele afagando meus cabelos e soluço ainda mais. Sinto o corpo dele se inclinando, abraçando meu corpo de modo caloroso. Lucidez. Amor. Doçura. Meu Mestre. Estou aos pés do Mestre. E ele me ampara. Pergunta o que houve. Pede que eu conte a ele.
Conto o que senti à tarde. A fala se mistura ao choro.
Minha nossa, como pode tanta água?
Digo a ele que não é ruim. Não é aflitivo. Na verdade, é bom sentir aquilo.
Falo da prece de Shantideva, palavras que poderiam traduzir minhas preces em criança.
Ele me diz para focar na natureza absoluta dos seres, nessa dimensão de liberdade, relembra que o sofrimento é somente uma experiência.
Sim, Lama, eu sei. O que senti hoje é bom. Dá significado à vida. É para isso que estou viva. Quero me movimentar para aliviar o sofrimento dos seres.
Seres de sonho, em sofrimentos de sonho. É isso.
Aos prantos, olho nos olhos de pura lucidez de meu Precioso Mestre.
Não me deixa esquecer, Lama. Não me deixa esquecer.
Aperto as mãos dele. Não deixa que eu me distraia demais. E me orienta, nessa e nas próximas vidas. Mais uma vez, renovo meu voto em servi-lo nas próximas vidas.
Carinhoso, ele mexe no katag em volta de meu pescoço, ajeita meu cabelo. E diz que vamos resolver isso nessa vida.
E segue: essa é a dor de Tchenrezig. Quando sentir isso, ele me diz, quando entrar em contato com essa experiência de sofrimento... e ele canta baixinho o mantra do Guru. OM AH HUM BENZA GURU PEMA SIDHI HUM. Olha tudo através da luminosidade. A dupla Realidade. A luminosidade da natureza livre que produz todas as experiências.
Estou diante de meu Mestre. Estou diante do Buda vivo.
Sempre estive. Sempre estarei.
E sem um traço de orgulho, sinto a possibilidade de surgirem os mil braços. Onze cabeças e mil braços.
A manhã seguinte chega com uma alegria e firmeza incríveis. O Darma em sua força e liberdade. Totalmente disponível. A todos. De modo incessante.
Tomo refúgio.
Ao Lama, que sabe, presto homenagem.
Ao Lama, que sabe, agradeço.
Ao Lama, que sabe, ofereço minhas vidas.
Assim eu vivi.
Em 2008, estive em Viamão para a abertura da turnê brasileira. Foram dias de muitos insigths e visões. Um certo estado de graça e alegria por todos aqueles que passavam por lá. Gratidão aos mestres que nos apontam o caminho de modo incessante, gerando meios de nos alcançar aonde quer que estejamos. Chorava comovida ao ver famílias, idosos, bebês, pessoas de todos os jeitos.
Como sonhamos naquela primeira visita, as reliquias retornam ao Brasil para uma turnê em 10 cidades, entre elas São Paulo.
Cheguei por aqui na tarde de quarta, direto da rodoviária para o Centro Cultural Hiroshima, no bairro da Liberdade. O salão ainda estava vazio, a mágica toda por acontecer. Deixo a bagagem em algum canto. Sacola de viagem de sempre, recheada de roupas de frio. Faz frio e chove nessa cidade.
A montagem da exposição é inspiradora. Antes de qualquer coisa, Cristian, um dos guardiões, convida o grupo de voluntários para alguns minutos de meditação. Ele fala do que está por acontecer, relembra nossa motivação e nos oferece uma paisagem de oferecimento e serviço. Ficamos sentados no chão em silêncio. Estamos a algumas horas de montar o grande altar que irá abrigar as relíquias. Altar que irá lembrar os altares montados nos corações de todos.
A presença poderosa das relíquias apenas nos relembra nossa natureza de compaixão e amor. Simples assim.
Vamos nos dedicar ao longo desses 4 dias a isso. Nesse momento, o que poderia ser mais rico em nossas vidas?
E sentada no tapete no meio daquele salão vazio, lágrimas começam a surgir. E não param. Ainda não pararam.
A cada hora da montagem, Ghandi, o outro guardião, toca um pequeno sino. Hora de parar o que estamos fazendo e sentar em silêncio para relembrar nossa motivação e o propósito de toda aquela movimentação. Em apenas dois minutos, nosso eixo se refaz, e retornamos mais focados ao trabalho. E tudo vai ficando mais e mais bonito.
A cada manhã da exposição, alguns voluntários assistem a chegada das relíquias. Ficamos em silêncio enquanto os guardiões vão colocando cada uma delas em seus respectivos lugares no altar principal, começando pelo fragmento de uma carta escrita por Yeshe Tsoguial. Sim, a primeira reliquia a ser depositada é de uma mulher, consorte de Guru Rinpoche, sua principal aluna, de realização completa. Eles seguem em uma reverência total, movimentos calmos e coordenados, parece mesmo uma dança.
Tudo pronto, voluntários e guardiões recitam o Sutra do Coração da Prajnaparamita. A atmosfera que surge dentro do salão impressiona.
Milhares de pessoas visitam a exposição e recebem as bençãos, quase todas visivelmente tocadas de um modo misterioso. Ninguém consegue descrever muito bem o que se passa. Mesmo nos momentos em que a fila ia grande pela rua, todos esperavam com calma e respeito, e um grande silêncio surgia de modo natural.
O primeiro dia passa, vou ajudando aqui e ali, vendo o rosto de cada um dos voluntários se abrir em sorrisos e lágrimas.
Em algum momento, faço prostrações diante do altar e sigo prestando as homenagens a cada conjunto de relíquias. Diante da caixa que abriga os mestres mais recentes, um sentimento profundo me toma. Uma mistura de gratidão, humildade e dor. Ouço meu coração suplicar aos mestres que sigam cuidando dos seres. Porque eu não sei como fazê-lo.
Sigam cuidando dos seres, eu suplico, e me ajudem a ajudá-los.
O choro vem mais forte. E era só o início.
Ao final daquele primeiro dia, recitar a prece de dedicação de Shantideva abre ainda mais a fenda em meu coração, que parece muito pequeno para abrigar tudo aquilo. Que nenhuma doença se instale. Que todos os remédios sejam eficazes, que todos encontrem alívio. Que os cegos vejam formas, que os aprisionados encontrem liberdade. Enfim, que os seres sejam felizes. Que os seres se libertem do sofrimento. É isso. Sempre foi isso.
A experiência segue se aprofundando.
Sábado, início da tarde, nem me lembro o que fazia, algo me pega de jeito. Atravesso o salão do altar meio apressada. Na cozinha, ouço meu próprio choro. E ouço algo mais. Difícil descrever.
É como se naquele momento eu ouvisse o choro dos seres em sofrimento. É quase insuportável. Nas outras vezes, a conexão foi de alegria pelos seres que se aproximavam e se abriam às bençãos amorosas. E agora, senti a conexão com aqueles que não conseguem se aproximar. Como se eu entrasse em contato com a tal devastação que os mestres nos apontam quando descrevem o lago de lágrimas. Uma infinidade de seres em experiências de sofrimento.
Ouço o sofrimento dos seres. Gigantesco. Indescritível.
Alguém tenta me consolar. Mas não há o que consolar. Não sinto desamparo, ou dor, medo ou algo assim. Simplesmente sinto em meu coração a vastidaão dos seres que sofrem por desconhecerem nossa condição natural de liberdade. E deixo esse choro chorar em mim.
À noite, na prece de Shantideva, sou tomada de modo ainda mais intenso. Em um relance, todas as preces que recitamos em nossas atividades me surgem, vivas, palavra por palavra.
“Possam a aparência das Três Jóias e o fluxo mental dos seres permanecer inseparáveis e trazer sublime bem estar por todos os três tempos.”
Enquanto Cristian e Ghandi recolhem mais uma vez as relíquias, a Venerável Gloria recita mantras. Parece que meu coração vai arrebentar de vez. E ainda assim, não é uma experiência de dor.
Ouço minha mente chamando o Lama. Fica claro que tenho que me prostar diante dele, Lama que é a manifestação clara de compaixão, amor e lucidez. Lama que é a expressão viva da ação iluminada de Guru Rinpoche.
Ele está com um grupo em retiro aberto, em um hotel bem próximo ao local da exposição. Vou até lá com Fernando e Eliane. Sentamos em um canto da sala de meditação, que parece iluminada pelos rostinhos conhecidos. A sanga. Nossa família.
Como sempre, Lama brinca comigo, diz que está me achando muito branquinha, pergunta se foi um dia de muito trabalho, se eu me alimentei direitinho... Ele sabe que durante os eventos do Darma, geralmente não me alimento, nem durmo.
Meu olho molha devagar. Alguém comenta como foi lindo o dia para todos. Umas 1000 pessoas passaram por lá, só naquele dia.
Foi mesmo um dia muito lindo.
Ele encerra puxando as preces. E logo me sinaliza, para que eu cante a prece de Guru Rinpoche. Temos essa boa conexão, pela qual sou muito grata. Sei que a voz vai ser traída pelo choro. E não deu outra.Ele segue rindo, e pede que as pessoas cantem mais alto.
Ele se despede do grupo e eu vou até ele, entrego o katag, e, chorando, coloco minha cabeça em seu colo.
Sinto as mãos dele afagando meus cabelos e soluço ainda mais. Sinto o corpo dele se inclinando, abraçando meu corpo de modo caloroso. Lucidez. Amor. Doçura. Meu Mestre. Estou aos pés do Mestre. E ele me ampara. Pergunta o que houve. Pede que eu conte a ele.
Conto o que senti à tarde. A fala se mistura ao choro.
Minha nossa, como pode tanta água?
Digo a ele que não é ruim. Não é aflitivo. Na verdade, é bom sentir aquilo.
Falo da prece de Shantideva, palavras que poderiam traduzir minhas preces em criança.
Ele me diz para focar na natureza absoluta dos seres, nessa dimensão de liberdade, relembra que o sofrimento é somente uma experiência.
Sim, Lama, eu sei. O que senti hoje é bom. Dá significado à vida. É para isso que estou viva. Quero me movimentar para aliviar o sofrimento dos seres.
Seres de sonho, em sofrimentos de sonho. É isso.
Aos prantos, olho nos olhos de pura lucidez de meu Precioso Mestre.
Não me deixa esquecer, Lama. Não me deixa esquecer.
Aperto as mãos dele. Não deixa que eu me distraia demais. E me orienta, nessa e nas próximas vidas. Mais uma vez, renovo meu voto em servi-lo nas próximas vidas.
Carinhoso, ele mexe no katag em volta de meu pescoço, ajeita meu cabelo. E diz que vamos resolver isso nessa vida.
E segue: essa é a dor de Tchenrezig. Quando sentir isso, ele me diz, quando entrar em contato com essa experiência de sofrimento... e ele canta baixinho o mantra do Guru. OM AH HUM BENZA GURU PEMA SIDHI HUM. Olha tudo através da luminosidade. A dupla Realidade. A luminosidade da natureza livre que produz todas as experiências.
Estou diante de meu Mestre. Estou diante do Buda vivo.
Sempre estive. Sempre estarei.
E sem um traço de orgulho, sinto a possibilidade de surgirem os mil braços. Onze cabeças e mil braços.
A manhã seguinte chega com uma alegria e firmeza incríveis. O Darma em sua força e liberdade. Totalmente disponível. A todos. De modo incessante.
Tomo refúgio.
Ao Lama, que sabe, presto homenagem.
Ao Lama, que sabe, agradeço.
Ao Lama, que sabe, ofereço minhas vidas.
Assim eu vivi.
Postar um comentário