fragmentos e reflexões - sobre generosidade

Uma jornalista enviou algumas perguntas.
Diante das perguntas, mais do que respostas, surgem reflexões.

O que determina uma pessoa ser disposta a ajudar os outros sem interesse?

Essa disposição em ajudar os outros parece ser uma das qualidades humanas mais simples e bonitas. E, talvez por isso mesmo, uma das mais intrigantes. A generosidade que é realmente generosa não se diz, nem se sabe generosa. Ela simplesmente surge de modo natural e se sustenta pela própria alegria que gera em quem ajuda, independente do reconhecimento de quem é ajudado.

Podemos dizer que a generosidade está relacionada a um estado de natural disponibilidade e abertura, e também a um grande interesse pela felicidade e bem estar dos outros. Ela talvez não possa ser medida pelos resultados de nossas atitudes, pelo quanto alguém trouxe de alivio ou amparo a alguma pessoa. Se fazemos algo hoje que alivia o sofrimento de alguém, essa mesma pessoa pode se encontrar em uma nova situação de sofrimento amanhã. Ou pode ser que ela não reconheça nossa ajuda desinteressada. Ou mesmo que não aceite nosso oferecimento. Se focarmos no resultado de nossa ação, muito provavelmente iremos simplesmente acumular um alto nível de frustração, podemos nos tornar amargos, e concluir que ser generoso é uma perda de tempo.

Um dos pontos interessantes é observar o que sentimos quando nos movimentamos com generosidade. Surge em nós uma alegria, surge uma energia que nos sustenta além da nossa forte e sempre presente noção de auto-interesse?

Muitas pessoas sentem o coração pulsar nessa intenção de ajudar os outros. Mas mesmo quando essa intenção é firme, há perguntas que sempre surgem: o que fazer? E como fazer?

Percebemos então que é preciso uma compreensão mais clara sobre o que é que nos torna verdadeiramente mais felizes e o que nos traz sofrimentos.

A essa altura do campeonato, já sabemos que os recursos materiais não garantem felicidade e não nos afastam do sofrimento.

Como todos queremos ser felizes, torna-se importante refletir sobre aquilo que nos trará uma felicidade genuína. A prática da generosidade nos convida a reflexões e uma abertura à sabedoria.


Muitas pessoas tem recursos e se sentem insatisfeitas, infelizes. Outras não dispõem de recursos materiais, e são mais disponíveis, parecendo encontrar satisfação em compartilhar o que tem, sejam recursos materiais ou humanos. Disponíveis em compartilhar a vida, enfim.


Por que a relação com outros seres humanos é importante?

Uma das características da humanidade é essa rede de relações. Somos “bichos de relação”, nós nos entendemos a partir de nossas relações. E nos desentendemos por aí também! Desde que nascemos, o contato, o afeto, os relacionamentos, enfim, parecem dar sustento e sentido às nossas vidas. Não nascemos humanos, nós nos tornamos humanos.

Podemos refletir sobre vários níveis de relação: nossa relação com os outros (família, amigos, parceiros no casamento e trabalho, escola, etc), nossa relação conosco, nossa relação com o planeta, seus habitantes e descendentes, nossa relação com as dimensões de mistério e espiritualidade, etc. Todas essas relações parecem desempenhar um papel muito importante nessa tal felicidade que todos buscamos.

E parece que a capacidade de manifestarmos generosidade em todos esses níveis, de modo genuíno, constante e desprovido de auto-interesse, amplia nossas possibilidades de uma vida mais feliz e alegre.



Como cultivar a generosidade em uma sociedade cada vez mais individualista como a nossa? Quais ações podem ser incorporadas ao dia a dia para que as pessoas se tornem mais generosas?


Em uma sociedade que parece estar cada dia mais individualista e competitiva, refletir sobre generosidade e felicidade pode parecer estranho. Ao contrário, atualmente tais reflexões tem se mostrado questões muito relevantes e que se colocam de modo prático. E assim devem ser. Ao invés de falar apenas, vamos nos colocar como observadores. Sim, o mundo competitivo está aí. E podemos nos perguntar: quando me movimento de modo exclusivamente competitivo, o que acontece? Podemos ganhar empregos e posição, destaque e reconhecimento. E um monte de confusão decorrentes da sustentação de tudo isso. Talvez possamos nos sentir com mais energia até. Mas nos sentimos contentes?

E quando nos movimentamos com generosidade, interessados no bem estar comum, será que isso nos torna menos “eficientes” no mundo? Os empresários de diversas partes do mundo estão chegando à conclusões bem interessantes nesse sentido.

A generosidade muitos vezes é reconhecida como a capacidade de doar bens materiais. Certamente, há momentos em que recursos materiais são extremamente necessários, e se podemos oferecê-los, isso já é maravilhoso. Mas há muito mais a ser dedicado: nosso tempo, nossa paciência, nossa capacidade de proteger a vida das pessoas e do nosso planeta, nosso entusiasmo, nossa não desistência diante das dificuldades que surgem em nossas vidas.

Quando foi a última vez que fizemos algo para outra pessoa sem nos preocuparmos com coisa alguma? Diante de um pai idoso, seguramos sua mão e aceitamos seu medo diante da fragilidade que a idade nos traz. E o convidamos para um banho de sol na portaria do prédio em que ele mora. E sorrimos, leves e contentes, diante do sorriso dele. Ele segue com medo, e frágil. Caminha meio cambaleante pelo peso da idade e das emoções que o perturbam. E nós talvez possamos seguir preocupados com os exames, médicos e tudo o que ainda está por acontecer e é sempre tão imprevisível.

Mas talvez, por um breve instante, se simplesmente oferecemos nosso tempo, nossa mão, nosso sorriso, se estamos disponíveis ao que acontecer, por um breve instante, a generosidade nos movimentou. É só observar. É prático. É palpável. Acontece na vida de todos nós.

Parece simples. E talvez seja mesmo.
Mas temos que experimentar. Sem desistir. Sem fantasiar.

Não temos casa e comida para oferecer? Oferecemos idéias.
Não temos dinheiro ou remédios? Oferecemos sorrisos.
Podemos oferecer muito, inclusive nossa criatividade sobre o que oferecer: nosso tempo, nossa energia e dedicação, nosso trabalho honesto, orações, um livro, um agasalho, uma receita. Um pouco de silêncio. Uma fala mais firme. Um choro sem cerimônia.

Certamente cada um de nós já experimentou a generosidade. Já recebemos, já doamos. Ainda que em sonhos e aspiração.

Podemos oferecer nossa vida. Isso sempre será possível. E muitas vezes não precisamos fazer nada muito diferente ou espetacular. Basta manter abertura, conexão, interesse. Somos todos companheiros na mesma jornada.

Estamos vivos. E essa é a nossa grande aventura.

1 Response to "fragmentos e reflexões - sobre generosidade"

  1. Filha do Rei Says:

    Hoje na nossa vida o egoísmo está presente, a correria do dia a dia e que não dá tempo de olhar para o outro, o querer mais e mais nos leva a esquecermos que lidamos com pessoas. Mas mudaremos, ainda olharemos mais para quem está ao nosso lado, não ficaremos somente comovidos, mas agiremos. Abraços!

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